terça-feira, 5 de abril de 2011

O Beira-Rio não conjuga o verbo temer.


  O Beira-Rio pulsa. Grita. Sente. No silêncio da noite, na indiferença da tarde, na revoada da manhã, o Beira-Rio está constrito, está calado, contemplativo, esperando o grande momento, da grande partida. 
  O estádio tem vida. Dentro de nós há um Beira-Rio que se admite eterno, que se vê e se sente feliz por ser a casa do Inter. Uma casa de fé, de amor, de devoção. Uma casa de espera, de lágrimas e sorrisos, de sentimentos infinitos que acusam uma amplitude eterna, um esforço universal. Nas entranhas do Beira-Rio há um amor que teimou em ser desafiado e a cada dor mais cresceu, mais amor se tornou. Amor de verdade, como esse, não sente medo: cala e sofre, mas não desiste. O Beira-Rio tem um idioma próprio. O Beira-Rio não conjuga o verbo temer.
  O concreto do Inter, o mar do Inter. A igreja desse sentimento. O templo está armado para o sacerdócio da linda obstinação, o templo não pode ser profanado: a fé dos seguidores o sustenta com vigas invisíveis, inquebrantáveis. Os fiéis crêem, esperam, deliberam nervosos, apreensivos: querem navegar o mar que é seu. Amam a fé, amam o templo. Sonham abarcar o mundo com o peso daquela mística que só o coração deles entende – o templo os acolhe. Templo fecundo, carinhoso. Templo-mãe de todos nós.
  Os colorados fecham os olhos. Pela vida afora, somos vergonhosamente imperfeitos: não acusamos nossos disfarces, restringimo-nos em egoísmos estéreis mas, ao fim e ao cabo, resta sempre nós mesmos a enfrentar. Há sempre esse "eu" próprio que nos fala ao coração pela autoridade do sentimento e que nos convence porque se trata da nossa própria voz, íntima e inesquecível, nos chamando ao encontro daquilo que queremos ser. 
  Mais cedo ou mais tarde, sempre nos deparamos com esse chamado pessoal, que chega sem avisar. Tal encontro nos abarca a vida toda, e a justifica, e nesse momento somos perfeitos. Aqui e agora mesmo, colorados, está entre nós essa consciência, essa ligação sublime de cada um com sua própria eternidade. Ela está aqui, e ela vem e nos remete o aviso ao lugar mais profundo do coração: a hora chegou. A hora aqui está. 
O Beira-Rio já está pronto, colorado. Chegue perto dele, dirija-se a ele com aquela intimidade que é filha do amor, mesmo que haja entre vocês dois um globo inteiro de distância. Cerre os olhos, abra o coração e ouça: a hora chegou, a hora aqui está. Para falar a si mesmo, a distância é nenhuma.
Feche os olhos. São noventa minutos. Onze guerreiros, milhões de fiéis. O Inter chama. O Inter diz presente. Feche os olhos e venha. A distância é nenhuma. A hora chegou.

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