quarta-feira, 23 de maio de 2012

Lenda do amor e da loucura.


     Certa vez me contaram que todos os sentimentos e qualidades dos homens reuniram-se em um lugar da Terra. Quando o aborrecimento havia reclamado pela terceira vez, a loucura, então, lhes propôs:
     - Vamos brincar de esconde-esconde?
   A intriga levantou a sobrancelha com ar de desconfiança e a curiosidade sem poder conter-se perguntou:
     - Esconde-esconde? Como é isso?
     - É um jogo, explicou a loucura, em que eu fecho os olhos e começo a contar de um a um milhão enquanto vocês se escondem, e quando eu estiver terminado de contar, o primeiro de vocês que eu encontrar ocupará meu lugar para continuar o jogo.
     O entusiasmo dançou seguido pela euforia.
  A alegria deu tantos saltos que acabou pôr convencer a dúvida e até mesmo a apatia, que nunca se interessavam por nada. Mas nem todos quiseram participar.
     A verdade preferiu não esconder-se: "Para que, se no final todos me encontram?".
     A soberba opinou que era um jogo muito tonto (no fundo, o que a incomodava era que a ideia não tivesse sido dela).
     A covardia preferiu não arriscar-se.
   - Um, dois, três, quatro... - começou a contar a loucura.
     A primeira a esconder-se foi a pressa, que como sempre caiu atrás da primeira pedra do caminho.
     A subiu ao céu e a inveja se escondeu atrás da sombra do triunfo, que com seu próprio esforço tinha conseguido subir na copa da árvore mais alta.
     A generosidade quase não consegue esconder-se, pois cada local que encontrava, lhe parecia maravilhoso para algum de seus amigos. Se era um lago cristalino, ideal para a beleza. Se era a copa de uma árvore, perfeito para a timidez. Se era o voo de uma borboleta, o melhor para a volúpia. Se era uma rajada de vento, magnífico para a liberdade. E assim acabou escondendo-se em um raio de sol.
     O egoísmo, ao contrário, encontrou um local muito bom desde o início. Ventilado, cômodo, mas apenas para ele. A mentira escondeu-se no fundo do oceano (mentira, na realidade, escondeu-se atrás do arco-íris). E a paixão e o desejo, no centro dos vulcões.
     O esquecimento, não recordo-me onde escondeu-se, mas isso não é o mais importante.
    Quando a loucura estava contando lá pelo 999.999, o AMOR ainda não havia encontrado um local para esconder-se, pois todos já estavam ocupados, até que encontrou uma roseira e, carinhosamente, decidiu esconder-se entre suas flores.
     A primeira a aparecer foi a pressa, apenas a três passos de uma pedra. Depois, escutou-se a discutindo com Deus, no céu, sobre zoologia. Sentiu-se vibrar a paixão e o desejo nos vulcões. Em um descuido, a loucura encontrou a inveja e claro, pode deduzir onde estava o triunfo. O egoísmo, não teve nem que procurá-lo: ele sozinho saiu disparado de seu esconderijo, que na verdade era um ninho de vespas.
     De tanto caminhar, a loucura sentiu sede e ao aproximar-se de um lago, descobriu a beleza. A dúvida foi mais fácil ainda, pois a encontrou sentada sobre uma cerca sem decidir de que lado esconder-se.
     E assim foi encontrando a todos.
     O talento entre a erva fresca, a angústia em uma cova escura, a mentira atrás do arco-íris (mentira, estava no fundo do oceano) e até o esquecimento, que já havia esquecido que estava brincando de esconde-esconde.
     Apenas o AMOR não aparecia em nenhum local. A loucura procurou atrás de cada árvore, embaixo de cada rocha do planeta e em cima das montanhas. Quando estava a ponto de dar-se por vencida, encontrou um roseiral. Pegou uma forquilha e começou a mover os ramos, quando, no mesmo instante, escutou-se um doloroso grito. Os espinhos tinham ferido o AMOR nos olhos. A loucura não sabia o que fazer para desculpar-se. Chorou, rezou, implorou, pediu perdão e até prometeu ser seu guia.
     Desde a primeira vez que se brincou de esconde-esconde na Terra, o AMOR é cego e a loucura sempre o acompanha.
Autor desconhecido

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